Capítulo 3

Meus irmãos, não sejam muitos de vocês mestres, pois vocês sabem que nós, os que ensinamos, seremos julgados com maior rigor. Todos tropeçamos de muitas maneiras. Se alguém não tropeça no falar, tal homem é perfeito, sendo também capaz de dominar todo o seu corpo.  (Tiago 3:1-2)

Antes de continuar a expor o capítulo 3, devemos ter em mente que o tema maior da carta é a fé que produz frutos. Aqui Tiago parece dizer: o modo que você usa a sua língua irá demonstrar que tipo de fé você tem.

Quando eu era criança e ia ao médico, ele me pedia para abrir a boca e mostrar a língua. Ao olhar para a minha língua, o médico poderia ter uma ideia de como estava o meu estado de saúde. Tiago, nesse capítulo, parece dizer: abra a sua boca e mostre-me a sua língua, pois ela mostrará muita coisa sobre o estado de sua fé.

Há uma advertência a todos aqueles que desejam ensinar. Tiago diz que os que ensinam terão um juízo mais duro, pois terão que usar a língua para ensinar a palavra de Deus e por isso devem vigiar muito mais. O versículo um pode ser parafraseado assim: “não alimentem a ambição indevida de serem mestres. É uma grande responsabilidade ensinar e por isso, vocês que querem ser mestres devem ter uma vida coerente com o que vão ensinar”.


Ele ainda continua  dizendo que todos nós (aqui ele desvia a exortação dos mestres para os que não são) em algum momento falamos coisas tolas. Você já falou coisas e no mesmo momento pensava, por que estou falando isso, por que estou falando essa coisa tola e, você  queria parar mas não conseguiu? Todos nós já passamos por isso. Tiago diz que se alguém não tropeça em palavras esse tal é perfeito. Mas o fato é que somos imperfeitos.

Quando colocamos freios na boca dos cavalos para que eles nos obedeçam, podemos controlar o animal todo. Tomem também como exemplo os navios; embora sejam tão grandes e impelidos por fortes ventos, são dirigidos por um leme muito pequeno, conforme a vontade do piloto. Semelhantemente, a língua é um pequeno órgão do corpo, mas se vangloria de grandes coisas. Vejam como um grande bosque é incendiado por uma simples fagulha.  (Tiago 3:3-5)

Aqui Tiago nos mostra que a língua é poderosa. Ele compara a língua ao freio na boca do cavalo. Mesmo sendo um animal forte, um pequeno cabresto pode controlar o cavalo. Ele também fala dos barcos que são controlados pelos lemes. Apesar de serem grandes, são guiados por algo pequeno.

O que Tiago quer nos ensinar aqui é que a sua língua, mesmo sendo pequena, pode dar direção a sua vida. Ela pode mudar o curso da sua vida, assim como o freio na boca do cavalo e o leme do navio.

É por isso que temos que prestar muita atenção naquilo que falamos. Muitas vezes entramos em sérios problemas por causa de nossas palavras. Muitos perdem o emprego porque falou o que não devia, outros perdem quem ama ou uma oportunidade no trabalho. Tudo porque não controlam sua língua. Quando finalmente estão a um passo de conseguir algo na vida, falam algo e põe tudo a perder.

Ele diz que a língua se gloria de grandes coisas. Com isso ele quer mostrar os pecados da língua. Quando queremos falar  para nos aparecer; quando exageramos nas histórias; quando queremos créditos; quando queremos status; quando queremos atenção no que dizemos. Ele diz que a língua se gaba de grandes coisas.

Assim também, a língua é um fogo; é um mundo de iniqüidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno.  (Tiago 3:6)

Vimos que a língua tem o poder de dar direção às nossas vidas e que ela é poderosa. Mas agora ele dá continuidade dizendo que além de ser poderosa, nossa língua  pode prejudicar nossa vida.

Todos nós sabemos de grandes incêndios que começaram com apenas uma faísca. Sei também que você sabe de situações em que a briga começou por causa de apenas uma palavra. É por isso que Tiago diz que a língua é como o fogo ou como uma faísca.

Uma palavra que você fala pode causar desarmonia, denegrir a imagem das pessoas,  pôr fim a um relacionamento, fazer com que alguém seja prejudicado, desencorajar pessoas, assassinar sonhos e também contaminar alguém.

Ela é como um fogo, como diz Tiago, e esse fogo quando se alastra, queima os outros e queima você mesmo.

Toda espécie de animais, aves, répteis e criaturas do mar doma-se e é domada pela espécie humana; a língua, porém, ninguém consegue domar. É um mal incontrolável, cheio de veneno mortífero.  (Tiago 3:7-8)

Tiago diz aqui que é mais fácil domar os animais selvagens do que a língua. Se fosse fácil seriamos perfeitos, mas não somos. Todos nós temos experiência nisso.

Você nunca se arrepende por ficar quieto em uma discussão.  No entanto, falamos quando deveríamos ouvir. Por quê? Porque é difícil domar a língua. Mas Tiago diz que aquele que não consegue domar sua língua a religião dele é vã.

Veja, Tiago aqui não esta arrumando desculpas, dizendo “não se preocupem com a língua, pois ela não é fácil de ser domada mesmo”. É claro que só  podemos controlar sob a influencia do Espírito Santo, mas não é impossível.

Ele ainda diz que ela contém veneno. Nós com facilidade envenenamos as pessoas com aquilo que falamos. Todos sabemos disso por experiência.

Isso é muito comum acontecer na igreja. Certa vez, um professor no seminário me disse algo muito interessante. Ele dizia que nunca falava mal de um membro da igreja ou líder perto dos filhos. Disse-me  isso porque ele não queria contaminar os filhos com as dificuldades do ministério. Sim, até chegava a comentar com a esposa, mas tudo era com muito cuidado.

A língua é poderosa como mostra o texto, e  aqui vemos que a língua é reveladora.

Com a língua bendizemos ao Senhor e Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim! Acaso pode sair água doce e água amarga da mesma fonte? Meus irmãos, pode uma figueira produzir azeitonas ou uma videira, figos? Da mesma forma, uma fonte de água salgada não pode produzir água doce.  (Tiago 3:9-12)

O argumento de Tiago é: O que você fala releva quem você é. Você pode até dizer que é crente, mas sua língua pode revelar o contrário.

Ele nos pergunta: é possível uma figueira produzir azeitona?  A resposta nós sabemos: não.

São coisas diferentes. Não faz parte da natureza da figueira, o certo é a figueira produzir figos. Da mesma forma, sua palavras devem ser diferentes. Se você diz que é crente, seus frutos devem ser diferentes.

Quem é sábio e tem entendimento entre vocês? Que o demonstre por seu bom procedimento, mediante obras praticadas com a humildade que provém da sabedoria. Contudo, se vocês abrigam no coração inveja amarga e ambição egoísta, não se gloriem disso, nem neguem a verdade. Esse tipo de “sabedoria” não vem do céu, mas é terrena, não é espiritual e é demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há confusão e toda espécie de males. Mas a sabedoria que vem do alto é antes de tudo pura; depois, pacífica, amável, compreensiva, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera. O fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores. (Tiago 3:13-18)

Antes de continuar analisando essa parte do capítulo 3, devemos ter em mente o grande tema da carta: a fé que produz algo. Tiago oferece vários testes para que cada um possa se examinar. Neste capítulo, nos versículos de 1 a 12, o teste está relacionado a como você usa a sua língua. Dos versículos 13 a 18, o teste é: qual a sua atitude em relação a sabedoria?

Aqui, Tiago volta a exortar àqueles leitores que desejavam ser mestres da palavra.  No capítulo 3, versículos 1 a 12 , ele ensinou sobre a importância de controlar a língua. Isso porque, os que ensinam a usam e,  além do mais, pessoas são influenciadas por suas palavras, as quais podem dar direção à vida dos outros.  

Ele diz: “Quem é sábio e tem entendimento?”.  As palavras sábio e entendido transmitem a ideia de um professor, um perito. Ele quer dizer: você se considera um mestre, um professor, um sábio mesmo? Vamos ver se você passa no teste. É muito fácil falar que é sábio. Tiago diz: Mostre-me que você é sábio não pelo que você fala, mas sim como você vive. 

No capítulo 2, Tiago disse que a fé é demonstrada pela a obediência a Deus. O tipo de comportamento que uma pessoa tem, irá mostrar o tipo da sua fé. Aqui, ele volta a enfatizar que os frutos demonstram a qualidade da árvore. Ou seja, o tipo de comportamento que um mestre ou líder tem, irá demonstrar o tipo de sabedoria que ele possui.

 Se eu perguntasse quem é sábio e tem entendimento às pessoas da rua, talvez elas me diriam: “uma pessoa que estudou em Havard; uma pessoa que escreveu muitos livros; um homem que é capaz de debater sobre assuntos diversos; que sabe falar bem”. Achamos uma pessoa sábia pelo seu falar, pelos títulos que ela possui, porque  escreveu muitos livros, etc. Será que isso prova de fato que ela é sabia? Ao julgá-la pelos padrões do mundo sim, mas não pelos padrões de Deus.

Uma pessoa sábia, olhando do ponto de vista de Deus é mansa, controlada, humilde e ensinável. Quanto mais aprendemos, descobrimos que não sabemos nada. Por isso é perigoso ter um pouco de conhecimento porque achamos que não precisamos mais aprender com ninguém. Os homens que mataram o nosso Senhor Jesus eram peritos na lei, mas não eram humildes e nem ensináveis. 

Já percebeu que muitas pessoas que sabem muito são arrogantes? Elas se julgam sábias, o mundo as julga sábias, mas são arrogantes. Já conheci muitos líderes bons de púlpito, mestres e doutores em teologia e que são extremamente arrogantes. Isso não é sabedoria do alto.

Para entender a diferença entre os dois tipos de sabedoria que Tiago ensina, podemos dividir o texto assim:

As características da sabedoria que vem do alto:

1. Ela é pura. A palavra grega significa sem misturas, não contendo nenhuma impureza. Isso pode se referir à pureza moral. Olhando para o contexto, significa estar livre de inveja e ambição egoísta. O que Tiago está falando aqui, está relacionado à motivação. Se buscamos sabedoria com o desejo de ganhar as discussões ou com o desejo de mostrar que sabemos, esse tipo de sabedoria não glorifica a Deus. Ela não edifica o próximo e não é do alto.  Antes de você entrar em debates teológicos, examine o seu coração e veja porque você quer isso. Qual a motivação em debater? 

2. Ela é pacífica. Note que a pureza vem em primeiro lugar. Por quê? Porque não devemos comprometer a pureza em nome da paz. Se você comprometê-la, não estará agindo de acordo com a sabedoria do alto. Se também você se agarra a pureza de uma maneira contenciosa, não estará demonstrando a sabedoria do alto. Devemos fazer tudo que está ao nosso alcance para promover a paz. Há pessoas que sempre estão entrando em discussões, querem debater, são viciados em uma boa polêmica. Se por um lado temos que lutar pela pureza da doutrina, por outro, devemos tomar o cuidado de não brigarmos por causa de diferenças de opiniões em relação a costumes, tradições, etc.

3. Ela é amável ou gentil.  Os estudiosos diferem quanto a melhor tradução. Penso que as palavras que melhor expressam a ideia de Tiago é tranquila, não tirana, gentil,  indisposto a fazer exigências rigorosas.

4. Ela é compreensiva. A palavra significa literalmente: facilmente persuadido. A ideia expressa aqui é de ser tratável, ou seja, acessível, pronta a ouvir e ceder quando a verdade assim a requer. Há pessoas que mesmo conhecedoras de seus erros, continuam neles, pois para elas, admiti-los é um sinal de fraqueza e perda de autoridade.

5. Ela é cheia de misericórdia e de bons frutos. Ser misericordioso significa não apenas mostrar compaixão por aqueles que sofrem injustamente, mas também por aqueles que sofrem justamente. Ao acrescentar “bons frutos”, acredito que ele tinha em mente o que ensinou no capítulo 2, versículo 16. Se você ver alguém passando necessidade e não fizer nada, o que isso adianta? A sabedoria do alto não é apenas teórica, mas também é prática.

6. Ela é imparcial. Essa palavra significa: não dividido. Aqui o sentido pode ser “que não trata pessoas com favoritismos” como ele mesmo ensinou no capítulo 2, ou , “não estar dividido entre fé e dúvida”. O homem sábio confiará em Deus mesmo diante das provações, pois ele sabe que Deus está trabalhando em seu caráter. Em vez de se preocupar, ele irá se alegrar. Se um pessoa não consegue ver as provações sob essa ótica, deverá pedir sabedoria antes que ela perca a sua fé. O homem que tem a mente dividida não consegue ver a ação de Deus no dia a dia. Ele se preocupa demais. Em vez de ver Deus agindo nas dificuldades, ele se rebela contra Deus e se torna infiel. Ser dividido, seria então, estar dividido entre a fidelidade a Deus.

7. Ela é sincera. Ela é genuína, sem hipocrisia. Em outras palavras, ela não simula ser o que não é. Pense em um crente assim, que finge amar os irmãos. Um bom ator é tudo o que ele é.

As características da sabedoria mundana:

1. Ela tem inveja amarga e ambição egoísta.  Ele cita estas duas características que são motivações secretas do coração. Alguém que ensina podem facilmente cair nessas armadilhas. É muito fácil para aqueles que ensinam a palavra de Deus, sentirem inveja de outras pessoas que ensinam para uma congregação maior. Infelizmente, é possível alguém ensinar a palavra, simplesmente pensando nos benefícios que poderá conseguir com isso.

2. Ela é arrogante.  É muito fácil para aqueles que ensinam se tornarem arrogantes. Como vimos, um pouco de conhecimento pode ser perigoso, pois alguns podem achar que não precisam mais aprender com ninguém. Adquirir conhecimento somente para vencer debates ou provar para as pessoas que são conhecedores de algo, não é ser sábio.

3. Ela mente contra a verdade.  Se um homem está sempre debatendo, é invejoso, ambicioso e arrogante somente porque sabe alguma coisa, suas ações são contraditórias à verdade que ele proclama dizendo ser cristão.

4. Ela é terrena, natural e demoníaca. A fonte desta sabedoria é o homem natural, caído e separado de Deus. Com a palavra terrena, ele quer dizer que é uma perspectiva que falha em contemplar a Deus e a Sua vontade. Com a natural, que é o oposto do espiritual. E ao referi-la como demoníaca, mostra que ela é o oposto de Deus.

5. Ela resulta em confusão e toda espécie de males. Quando Paulo exortou os crentes de Corinto sobre os problemas na igreja, ele disse que Deus não é Deus de confusão, mas de paz. No grego a palavra confusão significa desordem. Onde há pessoas buscando seus próprios interesses e agindo com favoritismos sempre haverá confusão. Tiago encerra dizendo: “o fruto da justiça semeia-se em paz para os pacificadores”. Isso significa que se um fazendeiro planta batata, ele colherá batata; se ele planta milho, ele colherá milho. Tiago está dizendo que se você planta paz, você colherá paz; se você planta ambição egoísta e disputas, você colherá conflitos. Há uma lição implícita neste verso: a colheita não é algo acidental. Nenhum fazendeiro fica sentado o ano todo e depois vai até sua plantação e diz: olha, que plantação maravilhosa! Claro que não. Ele precisou trabalhar duro para semear. Se ele plantou é porque, em partes, ele precisou trabalhar. Se você ver uma casa ou igreja com paz, é porque eles semearam e se esforçaram para plantar a paz. Houve um esforço em respeitar os limites e ouvir as opiniões uns dos outros, evitando assim o egoísmo.

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